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Bets avançam sobre o ambiente de trabalho e acendem alerta nas empresas

Endividamento, pedidos de adiantamento, distração, faltas e queda de produtividade mostram que os efeitos das apostas on-line já ultrapassam a vida financeira dos trabalhadores e chegam às rotinas das organizações

O avanço das apostas on-line no Brasil começa a produzir um efeito que vai além do orçamento doméstico e das relações familiares. Empresas e departamentos de Recursos Humanos já identificam reflexos do endividamento e do uso frequente das plataformas de bets no comportamento e no desempenho dos trabalhadores, com registros de distração durante o expediente, atrasos, faltas, queda de produtividade, pedidos de adiantamento salarial e comprometimento de recursos como férias e 13º salário.

Pesquisa realizada pelo instituto Opinion Box, em parceria com Creditas Benefícios e Wellz, ouviu 405 gestores e profissionais de RH de empresas com mais de 100 funcionários. Entre os entrevistados, 53% afirmaram ter identificado colaboradores enfrentando dificuldades financeiras decorrentes das apostas, enquanto 47% perceberam aumento do envolvimento dos funcionários com essas plataformas.

O levantamento também aponta um comportamento que amplia o sinal de alerta: metade dos profissionais de RH percebeu intenção de trabalhadores de utilizar recursos provenientes do 13º salário e das férias para apostar. Além disso, 56% dos entrevistados disseram acreditar que muitos funcionários enxergam as bets como uma forma de investimento.

Os dados representam a percepção dos gestores consultados e, portanto, não permitem concluir que 53% dos trabalhadores brasileiros estejam endividados por causa das apostas. Ainda assim, indicam que um problema antes tratado predominantemente como questão financeira ou familiar já ingressou na agenda das empresas e das áreas responsáveis pela gestão de pessoas.

Empresas começam a reagir

Diante do problema, algumas organizações passaram a desenvolver ações preventivas. Já existem iniciativas de conscientização sobre os riscos das apostas, incluindo oficinas educativas, palestras e mentorias com educadores financeiros e programas de acolhimento para trabalhadores que já apresentam comprometimento relacionado ao jogo.

A ausência de dados consolidados impede, por enquanto, calcular quanto as bets efetivamente custam às empresas brasileiras em perda de produtividade, absenteísmo, acidentes, afastamentos ou adiantamentos salariais. Os indicadores disponíveis, contudo, mostram que a discussão já deixou o campo abstrato.

Para as áreas de Recursos Humanos, o desafio envolve estabelecer uma fronteira entre prevenção e interferência na vida privada. O salário pertence ao trabalhador, e a função da empresa não é fiscalizar extratos, identificar apostas individuais ou estabelecer julgamentos sobre escolhas pessoais. A atuação possível passa principalmente pela educação financeira, orientação sobre risco e encaminhamento para atendimento especializado quando houver sinais de perda de controle.

Em um cenário no qual uma aposta pode ser realizada em segundos pelo celular, o problema também muda de endereço. A dívida continua sendo do trabalhador, mas seus efeitos podem atravessar a porta da empresa — e chegar à produtividade, às relações de trabalho e à gestão de pessoas.

Presente no trabalho, distante da atividade

Um dos efeitos observados ganhou uma definição conhecida no universo corporativo: o presenteísmo. O trabalhador está fisicamente no local de trabalho, mas utiliza parte da atenção e do expediente para acompanhar resultados, verificar cotações, fazer novas apostas ou tentar recuperar valores perdidos. O comportamento pode anteceder faltas e afastamentos e se manifestar por meio de erros, atrasos em tarefas, perda de concentração e conflitos com colegas.

Nas empresas, os reflexos relatados incluem faltas frequentes, distração excessiva, redução do rendimento, atrasos e dificuldades de relacionamento. Associações empresariais também vêm recebendo relatos de trabalhadores endividados e de pedidos constantes de antecipação salarial. A Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) registra casos de dívidas de milhares de reais e crises familiares relacionadas às perdas, enquanto a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) aponta pedidos de adiantamento e desatenção entre os sinais percebidos nos estabelecimentos.

O problema não significa, entretanto, que todo trabalhador que aposta apresente dependência ou comprometimento profissional. Para parte dos usuários, a atividade permanece eventual. O limite começa a ser ultrapassado quando ocorre perda de controle sobre o tempo e o dinheiro destinado ao jogo, tentativa repetida de recuperar prejuízos, comprometimento do orçamento e negligência de responsabilidades pessoais e profissionais.

Afastamentos por ludopatia crescem

Quando a compulsão avança, o problema também pode chegar ao sistema de saúde e à Previdência. Em 2025, primeiro ano do mercado regulado de apostas no país, os afastamentos relacionados à ludopatia registrados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) cresceram 59,8% em comparação com 2024, passando de 425 para 679 casos. Embora o número seja pequeno diante dos 4,5 milhões de afastamentos contabilizados pelo instituto no período, a evolução reforça o surgimento de uma nova questão no ambiente laboral.

Na definição citada no levantamento, o transtorno do jogo ocorre quando a atividade passa a ocupar posição prioritária diante de áreas fundamentais da vida, entre elas as relações familiares e profissionais. Entre os possíveis reflexos estão desatenção e comportamentos incomuns no trabalho, capazes de produzir erros e, dependendo da atividade exercida, até riscos de acidentes.

A questão pode ser agravada pela associação com outros transtornos. O material aponta que ansiedade, depressão e outras condições de saúde mental podem coexistir com o comportamento compulsivo e aumentar os impactos sobre a capacidade profissional e a necessidade de afastamento.

Fontes: The News e Mundo RH

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