O que começa como entretenimento ou passatempo digital tem se transformado em uma fonte de tensão dentro de muitas casas brasileiras. As apostas online, hoje parte da rotina de 1 em cada 3 consumidores digitais, estão deixando um rastro que vai além das perdas financeiras: estão afetando o equilíbrio emocional, os relacionamentos e o desempenho profissional de quem joga com frequência.
De acordo com a pesquisa “Jogos de Aposta Online”, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas, 28% dos apostadores afirmam ter sofrido algum impacto negativo na vida pessoal por causa dos jogos. Entre os principais efeitos, estão irritação (8%), endividamento (8%), conflitos familiares (8%), problemas de saúde mental (8%), queda de produtividade (7%) e até advertências ou demissões no trabalho (6%).
Do lazer ao endividamento: um efeito em cascata
O dado é ainda mais preocupante quando se observa o contexto financeiro. Quase 20% dos entrevistados admitiram apostar valores que comprometem a renda, e 17% deixaram de pagar contas para continuar jogando. Para 41%, foi necessário abrir mão de algum consumo essencial, como alimentação fora de casa, supermercado ou até o acesso à internet, para manter o hábito das apostas.
A consequência natural desse comportamento é o aumento da inadimplência. Segundo o levantamento, 29% dos apostadores já ficaram negativados, e 17% ainda estão com o nome restrito por causa de dívidas ligadas ao jogo.
O que chama atenção é que muitos desses consumidores associam a aposta não apenas ao entretenimento, mas à esperança de resolver problemas financeiros, o que cria um ciclo de risco difícil de romper.
As apostas também estão abalando vínculos afetivos. O levantamento mostra que 46% dos entrevistados conhecem alguém próximo com problemas relacionados a apostas online, sendo 15% parentes diretos e 12% colegas de trabalho. Os relatos incluem mentiras, omissões, brigas e perda de confiança, além de sintomas de ansiedade e irritabilidade entre os jogadores mais assíduos.
Em muitos casos, o jogo passa a ocupar o espaço de convivência familiar e descanso, transformando momentos de lazer em períodos de tensão. O desequilíbrio emocional e o endividamento acabam ampliando conflitos e dificultando o diálogo em casa.
O ambiente de trabalho também não passa ileso. 7% dos apostadores afirmam ter percebido queda de produtividade e 6% chegaram a receber advertência, suspensão ou demissão em razão das apostas. O vício digital, impulsionado pela facilidade de acesso via celular, faz com que muitos passem a acompanhar resultados esportivos ou jogos durante o expediente, comprometendo o desempenho.
Além disso, a pressão psicológica provocada por perdas financeiras e a busca por recuperar o dinheiro perdido têm reflexos diretos no foco, na concentração e nas relações interpessoais dentro das empresas.
O silêncio e a dificuldade em buscar ajuda
Mesmo diante de tantos sinais de alerta, a maioria dos apostadores ainda evita procurar apoio. Apenas 21% buscaram algum tipo de ajuda para tentar reduzir ou interromper as apostas — a maioria recorreu à igreja (7%), amigos e familiares (7%), médicos ou psicólogos (6%) e educadores financeiros (6%). Já 37% afirmam que tentaram parar, mas não conseguiram, revelando um cenário típico de dependência comportamental, com recaídas e dificuldade de controle.
Os dados reforçam que o impacto das apostas online vai muito além das perdas monetárias: trata-se de um problema social e emocional em expansão, ainda pouco visível e raramente tratado de forma aberta. O avanço das plataformas digitais, aliado à publicidade intensa e à facilidade de pagamento via PIX, vem ampliando o acesso e, com ele, os riscos. Com o crescimento do setor e a popularização entre jovens e adultos, o país enfrenta um novo desafio: conciliar liberdade de entretenimento com responsabilidade social, regulação eficaz e educação financeira.
Fonte: Varejo SA